Quando a C. esteve internada, há mais de um ano atrás, a coisa complicou-se a sério. Tanto, tanto, que houve um dia que chorei de medo de não a voltar a ver bem.
A C. é daquelas pessoas que entra para ficar. Conhecemo-nos na primária, mas só lá para o sétimo ano ficamos amigas. A turma em que andavamos decidiu que eu não era "fixe" o suficiente para ter uma vida descansada e quase todos faziam um esforço verdadeiramente impressionante para me estragar o dia - todos os dias. A C. era minha amiga nessa altura. Boa parte das minhas memórias desse tempo são de nós a fazermos idiotices, a cantar as músicas dos reclames e a representar o Mike e o Melga nos intervalos. Ela foi uma das responsáveis por tornar a missão dos idiotas muito mais complicada. Provavelmente foi nessa altura que desenvolvemos um humor muito nosso, muito irónico. Se pudessem ouvir as nossas conversas, ainda hoje, provavelmente pensariam que somos umas pestes. Mas, talvez, tenha sido essa a forma que encontramos de enfrentar os problemas.
Mais tarde apaixonamo-nos. Curiosamente por irmãos. E tudo correu bem, até ao dia em que nos apaixonamos pela mesma pessoa. Eu nem bem me apaixonei para dizer a verdade, mas cometi um erro amoroso, digamos assim, e isso minou-nos. De tal forma que, passados uns tempos, por várias pequenas coisas, acabamos por cortar relações.
Mais de um ano depois, soube que lhe tinha sido diagnosticada uma doença crónica. Fui à casa dela, e quando ela abriu a porta demos um abraço até à alma, pedi-lhe desculpas e as duas assumimos que tinhamos sido umas totós, por nos chatearmos por coisas tão pequenas que nenhuma das duas se lembrava quais tinham sido.
Voltando àquela última vez, em que ela foi internada, a C. teve direito a tudo: tratamento com corticóides, tratamento com medicação experimental, catéter central, pneumonia, desorientação, convulsões, transferência para o hospital de Braga, transfusões e até aniversário num quarto de isolamento. Fui uma das priveligiadas que pode entrar no quarto no dia de anos. Tiramos umas fotos em que eu estava com a máscara de bico de pato, das quais até hoje nos rimos. Rimo-nos de quando se vestiu e tentou sair do hospital sem saber o que fazia, de quando comeu guardanapos a achar que era outra coisa qualquer. Às vezes rimo-nos, às vezes falamos a sério. Do medo que tivemos, de como ela sofreu por ser agarrada à cama e, mesmo estando já consciente, o enfermeiro continuava a falar como se ela não fosse um ser humano, como se ELE não fosse um ser humano, do que custou à mãe dela dormir aqueles meses todos no hospital a ter de a vigiar todos os segundos, não fosse a C. confundir a janela com a porta de casa.
Na verdade, com ela aprendi que nos podemos rir de virtualmente tudo. Admiro a coragem por ter a capacidade de o fazer, e acaba por ser uma forma incrível de se viverem as situações e de tirar delas algumas boas memórias, apesar de tudo.
Estava aqui a lembrar-me disto, de forma triste. E lembrei-me disto por me lembrar dela. Por pensar que, num dia como hoje, provavelmente nem ela me conseguiria fazer sorrir.
domingo, 11 de novembro de 2012
segunda-feira, 29 de outubro de 2012
Letargia
Tenho sono desta vida. Não por nada de extraordinário, nenhum acidente de percurso, ou pelas coisas que tenho de fazer. Só sono, um cansaço que não passa quando durmo.
quinta-feira, 18 de outubro de 2012
Começa assim
"Era
uma manhã muito, mas muito cinzenta. Poderia não sê-lo meteorologicamente, mas
aos olhos de Maria era, sem dúvida, a manhã mais cinzenta que já vira ao
acordar. Era o seu último dia. Levanta-se, toma o duche, lava os dentes. Come o
pequeno-almoço, refeição que mais gosta, com tranquilidade. Aparte da tristeza
do céu, era na verdade um dia muito calmo. Pardacento, triste, mas calmo, como
um cemitério às 3 da tarde.
Depois de lavar a louça, troca os chinelos confortáveis por uns sapatos. Hora de sair à rua, trabalhar. Decide-se por cumprir este dia comum, como última homenagem ao facto de ter estado viva."
Caraças, caraças! Tenho uma tese para fazer e a Maria e o D. andam a fervilhar na minha cabeça.
sábado, 13 de outubro de 2012
O meu corpo é o teu território
O meu corpo é o teu território. Pedes licença para entrar como quem pede licença a si próprio. O meu corpo é um prolongamento do teu, uma extensão.
Conquistaste-o quando me penetraste a alma.
Quando me dispo de pudores olhas para mim como se nunca me tivesses visto dessa forma. É sempre um olhar de admiração e descoberta. Todas as vezes são a primeira. E é com esse olhar que entras em mim antes de me tocar.
Conquistaste-o quando me penetraste a alma.
Quando me dispo de pudores olhas para mim como se nunca me tivesses visto dessa forma. É sempre um olhar de admiração e descoberta. Todas as vezes são a primeira. E é com esse olhar que entras em mim antes de me tocar.
Cobardia
A cobardia
é mais do que a ausência de coragem para fazer coisas. É bem mais que isso – é
o medo de enfrentar a verdade. Enterrá-la o mais fundo possível e fazer de
conta que não se sabe aquilo que, no fundo, não deixa nem um fiapo de dúvida.
Fazer ouvidos moucos, passar por cima, evitar sequer lembrar o que se sente, o
que se sabe. No fundo, viver como se não se fosse morrer nunca. Viver a vida
que não lhe pertence, que não é sua, que nunca foi, nem nunca será.
Fazer de conta que não se sabe isto e andar para a frente é cobardia.
E até nisto há uma boa dose de coragem.
Fazer de conta que não se sabe isto e andar para a frente é cobardia.
E até nisto há uma boa dose de coragem.
sábado, 6 de outubro de 2012
Há cinco anos atrás
Precisamente. A estas horas estava a dormir numa cidade do Pólo Norte. Tinha chegado há muito pouco tempo a Rovaniemi, a terra do Pai Natal. Há cinco anos atrás fui à Finlândia ver como se fazia enfermagem comunitária. Fiquei lá precisamente 89 dias, durante os quais escrevi um diário - coisa que já não fazia desde pequena, quando ainda usava aqueles super-seguros-com-cadeado-e-chave-miniatura. Calculo que talvez uns oitenta por cento do "diário" - que é um caderno normalíssimo, de linhas A4 - está cheio de baboseiras, principalmente acerca das saudades que tinha de casa. Suponho que as saudades em si não sejam baboseira nenhuma, o mesmo já não posso dizer sobre escrever a mesma coisa praticamente todos os dias. Apesar de não ter ainda relido por completo o que escrevi nesse período, considero a maior relíquia que trouxe de lá, porque faz renascer a memória das coisas. Agora que já passaram cinco anos, ocasionalmente abro uma página aleatória, nos raros momentos em que quero revisitar aquele sítio. E hoje aconteceu isso. Mas, como por esta altura estava mesmo lá, em vez de abrir uma data qualquer, fui relembrar o que fiz justamente no dia de hoje, mas desse ano, em que nem me lembrei que era feriado em Portugal. E há cinco anos atrás, a esta hora, já tinha escrito no meu diário:
"Rovaniemi, Finlândia 5 de Out. 2007 23h32m
Dia 32
Escrevo hoje, pela primeira vez, fora de Savonlinna. Nesta viagem que foi a mais longa da minha vida descobri o verdadeiro significado, não do tempo cronológico, mas do outro - aquele que se vive. É que esta viagem de dez horas não me pareceu tão longa como a de avião, que me trouxe à Finlândia.
Atravessamos a Finlândia do Sul até ao Norte, e o que pude ver enquanto ainda era dia, era em tudo semelhante a Savonlinna. Estou curiosa que amanheça para ver Rovaniemi, porque quando chegamos, além de ser noite, estava nevoeiro cerrado.
As outras três do quarto já dormem, e não devo demorar muito a acabar de escrever porque tenho a luz do quarto acesa. A M. acabou por vir, mas só decidiu uma hora antes. (...)
Hoje estou com mais saudades de casa, daquelas pouco saudáveis, que doem. Na viagem tive de apagar mensagens do telemóvel, porque estava com a memória cheia, e relê-las deu-me tantas saudades!... (...) Hoje comecei a ler a Paula de Isabel Allende, que a C. me emprestou, e estou a adorar! Isto não vem a propósito de nada, simplesmente tenho-me esquecido de comentar que acho fascinante a capacidade que os Finlandeses têm para se rirem de si próprios. Na nossa turma, um óptimo exemplo, foi quando fizeram a representação para apresentarem o país, e recriaram cenas caricatas: eles bêbedos e nus na sauna, a fecharem a porta na cara uns dos outros, sentarem-se longe ou preferirem ficar a pé a sentar-se perto dos outros no autocarro, (...) Ontem quando vinha à tarde para a escola, com dois colegas finlandeses que pertencem ao meu grupo de trabalho, depois de irmos à rua "to continue to collect daaaaaaaaata" as S. sais, eles preferiram subri quatro andares a pé, do que ir no elevador, que estava mesmo ao lado das escadas. Claro que eu ia-lhes a dizer que não percebia porque é que eles subiam e desciam tanta escada e eles responderam logo que preferem porque faz bem à saude mas claro que depois ficam a cheirar mal e assim também ninguém se chega ao pé deles e por isso andam sempre sozinhos, tristes e não têm amigos. Fartamo-nos de rir os três com a ideia(...).
Amanhã de manhã vamos tentar encontrar o Pai Natal. Hoje escrevi-lhe uma carta para entregar amanhã:
Dear joulupukki / Querido Pai Natal
My name is Maria and I'm 21 years old.
You might find strange that I'm writting to you (perhaps I'm a little old for that) but the true is that I'm having so much pleasure doing this. Deep down inside I still believe you. (...)"
E a carta seguia por ali fora a pedir uma série de coisas remélicas, tipo voltar bem para coisa e coisas do género.
Há cinco anos atrás, eu escrevia uma carta ao Pai Natal. A emoção era tanta, que lhe dizia que ainda acreditava um bocadinho nele. Achava que estava bem lançada, estava satisfeita com o que fazia para a idade que tinha, embora quisesse sempre mais. Tinha saudades terríveis da minha terra, do calor, do mar, do cheiro, e principalmente das pessoas que amo.
Cinco anos depois foi dia de hastear a bandeira ao contrário na comemoração da Implementação da República. E foi o próprio Presidente da República que hasteou a vergonha da nação - em mais do que um sentido. Olho para trás, para os cinco anos que passaram, e acho que não vivi o suficiente. Fico com sede do que não vivi, e tenho tanta, tanta pena que a minha profissão condicione de forma tão importante o meu bem-estar. Vivemos numa ditadura, disso não tenho dúvidas. Num estado de terror, de caos, de impunidade, onde praticamente só se safam mesmo bem os incompetentes e os burlões. Onde as pessoas de valor têm dificuldade em encontrar lugar, tal é a debandada da coisa. Não sei se o problema está no país, se no mundo, se em mim, mas não estou a encontrar o meu lugar. E por mais que queira que a minha casa seja ao pé de quem amo, esta casa mete-me medo, está a ficar fria, e a minha necessidade de partir já é tão grande quanto o meu desejo de ficar.
E a história do Pai Natal não acabou da melhor forma. O bocadinho de romantismo que tinha foi ao ar quando vi que custava 20eur tirar uma fotografia com ele. E pior foi quando falei com ele e vi que não sabia falar português. Ele prometeu que era o próximo idioma que ia aprender, mas um Pai Natal a sério havia de ser mais poliglota que aquele da televisão.
"Rovaniemi, Finlândia 5 de Out. 2007 23h32m
Dia 32
Escrevo hoje, pela primeira vez, fora de Savonlinna. Nesta viagem que foi a mais longa da minha vida descobri o verdadeiro significado, não do tempo cronológico, mas do outro - aquele que se vive. É que esta viagem de dez horas não me pareceu tão longa como a de avião, que me trouxe à Finlândia.
Atravessamos a Finlândia do Sul até ao Norte, e o que pude ver enquanto ainda era dia, era em tudo semelhante a Savonlinna. Estou curiosa que amanheça para ver Rovaniemi, porque quando chegamos, além de ser noite, estava nevoeiro cerrado.
As outras três do quarto já dormem, e não devo demorar muito a acabar de escrever porque tenho a luz do quarto acesa. A M. acabou por vir, mas só decidiu uma hora antes. (...)
Hoje estou com mais saudades de casa, daquelas pouco saudáveis, que doem. Na viagem tive de apagar mensagens do telemóvel, porque estava com a memória cheia, e relê-las deu-me tantas saudades!... (...) Hoje comecei a ler a Paula de Isabel Allende, que a C. me emprestou, e estou a adorar! Isto não vem a propósito de nada, simplesmente tenho-me esquecido de comentar que acho fascinante a capacidade que os Finlandeses têm para se rirem de si próprios. Na nossa turma, um óptimo exemplo, foi quando fizeram a representação para apresentarem o país, e recriaram cenas caricatas: eles bêbedos e nus na sauna, a fecharem a porta na cara uns dos outros, sentarem-se longe ou preferirem ficar a pé a sentar-se perto dos outros no autocarro, (...) Ontem quando vinha à tarde para a escola, com dois colegas finlandeses que pertencem ao meu grupo de trabalho, depois de irmos à rua "to continue to collect daaaaaaaaata" as S. sais, eles preferiram subri quatro andares a pé, do que ir no elevador, que estava mesmo ao lado das escadas. Claro que eu ia-lhes a dizer que não percebia porque é que eles subiam e desciam tanta escada e eles responderam logo que preferem porque faz bem à saude mas claro que depois ficam a cheirar mal e assim também ninguém se chega ao pé deles e por isso andam sempre sozinhos, tristes e não têm amigos. Fartamo-nos de rir os três com a ideia(...).
Amanhã de manhã vamos tentar encontrar o Pai Natal. Hoje escrevi-lhe uma carta para entregar amanhã:
Dear joulupukki / Querido Pai Natal
My name is Maria and I'm 21 years old.
You might find strange that I'm writting to you (perhaps I'm a little old for that) but the true is that I'm having so much pleasure doing this. Deep down inside I still believe you. (...)"
E a carta seguia por ali fora a pedir uma série de coisas remélicas, tipo voltar bem para coisa e coisas do género.
Há cinco anos atrás, eu escrevia uma carta ao Pai Natal. A emoção era tanta, que lhe dizia que ainda acreditava um bocadinho nele. Achava que estava bem lançada, estava satisfeita com o que fazia para a idade que tinha, embora quisesse sempre mais. Tinha saudades terríveis da minha terra, do calor, do mar, do cheiro, e principalmente das pessoas que amo.
Cinco anos depois foi dia de hastear a bandeira ao contrário na comemoração da Implementação da República. E foi o próprio Presidente da República que hasteou a vergonha da nação - em mais do que um sentido. Olho para trás, para os cinco anos que passaram, e acho que não vivi o suficiente. Fico com sede do que não vivi, e tenho tanta, tanta pena que a minha profissão condicione de forma tão importante o meu bem-estar. Vivemos numa ditadura, disso não tenho dúvidas. Num estado de terror, de caos, de impunidade, onde praticamente só se safam mesmo bem os incompetentes e os burlões. Onde as pessoas de valor têm dificuldade em encontrar lugar, tal é a debandada da coisa. Não sei se o problema está no país, se no mundo, se em mim, mas não estou a encontrar o meu lugar. E por mais que queira que a minha casa seja ao pé de quem amo, esta casa mete-me medo, está a ficar fria, e a minha necessidade de partir já é tão grande quanto o meu desejo de ficar.
E a história do Pai Natal não acabou da melhor forma. O bocadinho de romantismo que tinha foi ao ar quando vi que custava 20eur tirar uma fotografia com ele. E pior foi quando falei com ele e vi que não sabia falar português. Ele prometeu que era o próximo idioma que ia aprender, mas um Pai Natal a sério havia de ser mais poliglota que aquele da televisão.
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