sábado, 15 de dezembro de 2012

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Caliente

Senti que te aproximavas no meio da noite. Vinhas até mim, e eu libertava todo o calor que tinha para te dar. Aqueci-te, sinto que te aqueci. Estavas cada vez mais perto - e tu também, cada vez mais quente. A nossa relação era escaldante, talvez um pouco demais para ti. Foi então que tocaste nos meus botões. Mas o que parecia ser uma atração infinitamente poderosa, depressa se revelou uma desilusão. Eu arrefeci, tu também. O espaço onde estávamos arrefeceu. Tinhas-me desligado.
Ass.: O Aquecedor

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Cólica cardíaca

Quem já teve uma cólica a sério vai perceber o que digo. Mas é preciso remeter-se a uma boa cólica, daquelas valentes, que dá suores frios e arrepios de dor, que dá a sensação de morte eminente.
Volta e meia, sofre-se de cólicas cardíacas.
Na tentativa de se libertar dessa opressão ridiculamente persistente, o coração insiste em apostar numa alternativa aos flatos, já que esse órgão é fisiologicamente incapaz de os produzir - as palpitações. Não!, disse mal - os estrangulamentos cardíacos, será mais adequado. São tantos e tão fortes, que reduz o "coração a sair pela boca" a uma expressão para meninos.
O corpo treme todo, da cabeça aos pés. A visão fica turva, o pensamento toldado. A barriga aperta, como se levasse um soco mas não conseguisse sentir dor. O corpo contrai. A respiração transforma-se num arfar aflitivo. Quase se consegue ver a olho nu a descarga de hormonas que se lançam na corrente, completamente desorientadas: adrenalina, dopamina, endorfinas... todas as "inas" que, presentes em quantidades vestigiais são, ainda assim, capazes de reduzir o nosso corpo e tudo o que está dentro dele a um autómato imbecil. E quando se exacerbam os sintomas em simultâneo? É a mímica perfeita de um ataque de pânico e ansiedade. Como se nos cruzássemos com um leopardo enfurecido e descobríssemos que temos os pés colados aos sapatos, e os sapatos colados ao chão.
É mau, mau demais. Como uma doença psiquiátrica que alterna períodos alucinatórios com momentos de lucidez. Como se não nos pertencêssemos mais. Não nos pudéssemos prever, não nos reconhecêssemos naquelas reações biológicas estranhas e desprovidas de sentido, na inacreditável falta de bom senso e sensatez.
A má notícia: não há sanita p'ra aliviar este tipo específico de cólicas.
A magnífica notícia: duram muitíssimo pouco.
Depois, é só o tempo de nos esquecermos o quão exasperante e nocivo para o corpo é, para logo voltarmos a suspirar por um momento mais assim. E põe-se tudo em causa, como um viciado que troca a vida toda por uma droga qualquer.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Silence is golden

"To have nothing, to know nothing, to be no one"

***
Meditação é liberdade espiritual, estar livre de todas as experiências.
Estar imóvel, significa que quero ser livre mais que qualquer outra coisa.
O relaxamento profundo significa que deixo tudo ser como é.
Prestar atenção significa que não tenho nenhuma relação com o pensamento ou sentimento.
***
 
(45 minutos a uma hora de silêncio. Imobilidade. Costas alinhadas. O gongo marca o início. O gongo marca o fim. Entre uma coisa e outra - nada. E tudo. Uma eternidade, um segundo.)
 
Chegada na sexta-feira às 19h30, noite cerrada já. Aventura por estradas monte adentro, guiada pelas estrelas e dois ou três habitantes de uma povoação desconhecida pelo GPS, que me davam informações contraditórias.
De alguma forma, cheguei.
 
"Côn-tsei-tsaum, cómo tchegaste até nós?" - perguntou a Jutta, anfitriã, e eu respondi. "Procurei no google: retiros, e apareceu este; li por alto, não pensei muito sobre isso. Senti que queria vir, e vim. Se pensasse muito, provavelmente não viria. Mas... no caminho para cá comecei a pensar sobre isso, e... neste momento sinto-me muito feliz porque nenhum de vocês tem cara de assassino."
 
Cada um partilhou muito por alto como lá chegou. Alguns em solidariedade assumiram que partilharam da minha visão filme de terror, que afinal não se concretizou.
 
Jantar vegetariano absolutamente divinal. Explicar as regras. Simples. E complicadas. Aliás, este fim de semana foi um paradoxo pegado.
Preparar para o silêncio. Tirar relógios, desligar telemóveis. Não podemos falar, olhar nos olhos ou comunicar de qualquer outra forma com ninguém, para além do lider espiritual, e apenas nas sessões determinadas para pergunta-resposta. Não podemos ajudar na cozinha, ou em qualquer outra tarefa. Não podemos ler, escrever, pintar, ou produzir o que quer que seja. Somos nós, e o mundo, e o mundo dentro de nós. Só isso, mais nada. Voltar-nos-íamos a encontrar no domingo, no final da tarde.
Nessa noite, já não houve "boa noite", embora fossemos quatro pessoas a partilhar o quarto.
Na manhã seguinte, senti-me sozinha, acho que pela primeira vez. Um nó no estomâgo que durou uns segundos, e nem percebi se era uma boa ou má sensação. Talvez fosse um certo furor misturado com medo.
 
Programa simples. Acordar às 7h15. Às 8h primeira sessão de meditação. Depois disso, pequeno-almoço, sessões de meditação, almoço, sessões de meditação, lanche, sessões de meditação, jantar e... sim, sessões de meditação. Algures pelo meio uma sessão de pergunta-resposta.
 
O treino da disciplina, e a disciplina necessária para permitir que aquilo que somos de verdade consiga afastar ou silenciar o que temos alimentado mal demais, vezes demais - a mente; é algo rigoroso e duro por vezes. Mas um segundo de silêncio compensa uma vida de caos. Pela primeira vez desde que me entendo como gente, e depois de ter experimentado mil e uma coisas - mesmo mil e uma coisas - sinto que estou no meu caminho.
Eu procuro liberdade espiritual, perceber o que sou, o significado da vida, para onde vou, com que energia e porquê. Estudei comunicação por causa disso. Cuidados paliativos provavelmente pelo mesmo motivo - compreender a questão da vida e da morte. Reiki. Fui a palestras de programação neuro-linguística. Fiz exercícios de relaxamento e mindfulness, até pedi a uma colega para me ler o tarô e por pouco não caí numa sessão de espiritismo. Li dezenas de livros de espiritualidade. E nenhum, nada, me disse algo tão perto daquilo que ouvi este fim de semana, daquilo que eu própria já suspeitava. Há uns tempos publiquei um post sobre o que pensava quando andava sozinha. Este post. Pois é, quando andava sozinha provavelmente já estava a meditar sem saber. E a ideia do todo que se ramifica - esse todo, que ainda não percebo bem, encontra-se com o que o Pete descreve. Pete é um dos co-fundadores do projeto Awakened Life, que sinceramente não conhecia até poucas semanas atrás. O projeto é este, para quem estiver interessado nesta questão da evolução da consciência.
 
Voltemos ao silêncio. Silêncio, só isso. E o entendimento que nos pode trazer. Ser, apenas. E deixar ser. Três dias em que estive sozinha, e tão-tão acompanhada. Tão integrada em tudo o que me rodeava. A sentir tudo como parte de mim, e eu como parte de tudo. De todos. De sempre.
Muito tempo à volta da lareira, da comida, pelas ruas daquele povo isolado, pelos jardins, deitada num trampolim gigante a ver nuvens e ar, abandonada ao balançar que me libertava. E eu era tudo aquilo. E eu não era nada. Nada desta matéria é real. E tudo é... tudo é um. No fundo. Mas é preciso acordar. Deixar de viver escravo do ego, da mente.
 
Paradoxos em palavras, mas verdades essenciais. E as palavras, afinal, o que são? Senão um engano da mente. Uma construção. Tão limitada...
 
No domingo já era escuro quando nos voltamos a olhar e falar. Comer as delicias finais. Trocar impressões breves. Depois disso; partir, recomeçar.
 
(toca o gongo, assinala o fim)
 
***
O Fogo do teu Coração deve brilhar intensamente.
Esse fogo dar-te-á toda a energia, intenção e força de caráter para suportar, perceber, e em última instância ver através da tua própria mente.
Esse fogo será a tua meditação e nesse Fogo, a tua ignorância, que são todas as tuas ideias erras, irá arder.
***

sábado, 17 de novembro de 2012

Chamemos-lhe Pedro

Claro que não é o nome verdadeiro, que o sigilo profissional não permite. Mas faça-se de conta, que para o caso é o mesmo.
O Pedro vem com regularidade ao sítio onde trabalho, administro-lhe uma medicação para a doença degenerativa que lhe foi diagnosticada, que está excecionalmente bem controlada. É um homem novo, bem-disposto e educado, que detesta enfermeiras.
No primeiro dia que lá foi - há uns meses atrás - explicou-me que não era grande fã de injeções porque tinha sido casado com uma enfermeira que fazia de propósito para o aleijar quando o picava depois de discutirem.
Cada vez que lá vai conta-me uma nova história traumática em relação a enfermeiras.

Hoje:
- 'Tou cheio de sono, porque tive de me levantar cedo para vir tomar a injeção.
- E porque é que tem de se levantar cedo Pedro? Esta medicação tem hora para ser administrada?
- Não, porque você só está aqui de manhã (fez uma pausa enquanto eu preparava a seringa) Ao centro de saúde não vou mais. Nunca mais lá ponho os pés, fogo!
- Porquê Pedro? Não administram sem a guia de tratamento?
- Não, não é por isso. Mas já ma fizeram ir buscar ao carro. É um filme sempre que lá vou: "Ai não sei como se abre isto" Não sabe como se abre isto?? Enfim...
- Ó Pedro, mas olhe que esta medicação não é muito habitual, é natural que não saibam.

[Pausa para esclarecer que eu já o fiz ir buscar a guia de tratamento ao carro, e no primeiro dia que lá foi teve de me explicar como se abria a medicação].

O homem é mesmo corajoso. Colocou-se em posição e baixou ligeiramente as calças. Destapo e agulha e ele desata a desbobinar, muito rápido.
- Não gosto nada de enfermeiras. Pronto não gosto. Tenho más experiências. Não gosto mesmo nada de enfermeiras. Nada contra si, contra si não tenho nada, não leve a mal. Não se vai vingar agora na injeção pois não?
- Não Pedro, eu nunca faria isso. E deixe lá que eu também não gosto de Pedros. Não sei, tive más experiências com Pedros. Não gosto mesmo nada de Pedros. Não é nada contra si, não leve a mal. Só  não gosto de Pedros. Doeu mais que o costume?

E caimos os dois em gargalhada.

Ponto, ponto, ponto (ou a gramática da vida)

Um ponto no final da frase marca o fim.
Um ponto é o ponto final.
Vários pontos finais consecutivos, porém, convertem-se em reticências.
Talvez na vida seja assim também... ou se consegue fazer um ponto final duro, certeiro, inviolável; ou se se volta atrás umas quantas vezes, já tudo se transforma numa f(r)ase suspensa.


 

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Respira, São!

Inspirar. Encher o corpo. Levitar.
Voar. Voar.
Expirar. Quase cair. Acordar.